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Quando o bar se torna um cinema e amplia experiências

Quando o bar se torna um cinema e amplia experiências
Sessões de filmes ganham espaço em bares e restaurantes e ampliam as opções de lazer para os consumidores | Imagem gerada por IA

Por: Vinicius Melo
Data: 28 de agosto de 2026

Estabelecimentos apostam em mostras e sessões de filmes para diversificar a programação, atrair novos públicos e criar formas de consumo 

A experiência de ir a um bar ou restaurante já não precisa se limitar à comida, às bebidas e à música. Estabelecimentos por todo o Brasil têm encontrado no cinema uma forma de ampliar a programação cultural, criar motivos para o público sair de casa e transformar a própria relação entre entretenimento e consumo. 

As propostas são diferentes. Enquanto o Quinteiro, em Belo Horizonte/MG, transformou parte do seu espaço em um cinema ao ar livre, com sessões semanais e entrada gratuita, o Soberano Rua do Triunfo, em São Paulo, incorporou a exibição de filmes à própria identidade do negócio, funcionando como um bar e museu dedicado à história do cinema. 

A iniciativa acompanha uma mudança mais ampla no comportamento de quem frequenta estabelecimentos de alimentação fora do lar.  

Nesse cenário, criar uma programação cultural pode ser uma maneira de fazer com que o estabelecimento deixe de ser apenas o destino para uma refeição ou bebida e passe a ser também parte da atividade de lazer. 

No Quinteiro, cinema nasceu como alternativa para ocupar a casa 

Em Belo Horizonte, o Quinteiro encontrou no próprio espaço físico o ponto de partida para a iniciativa. Com 360 metros quadrados e capacidade para aproximadamente 250 pessoas, o estabelecimento precisava encontrar maneiras de movimentar a área também durante os dias de menor fluxo. 

A solução surgiu no “quintal da casa”. A ideia inicial era experimentar sessões de filmes às quartas-feiras. O projeto ganhou força e, com o tempo, tornou-se uma das atrações fixas da programação. “Uma vez a gente comentou: ‘Nossa, aqui é um cinema, ia ser muito legal.’ E aí a gente foi e começou a testar nas quartas-feiras. conta André Calixto, sócio proprietário do Quinteiro. 

A programação ganhou ainda mais repercussão durante o período do Oscar, quando o estabelecimento criou uma maratona relacionada à premiação. A experiência ajudou a consolidar uma percepção diferente sobre o espaço. 

“A gente percebeu que tinha virado, de certa forma, uma casa de assistir coisas. E a gente entendeu que era uma proposta diferente de um cinema. Normalmente no cinema o pessoal não conversa durante o filme, mas aqui você consegue beber, fumar, tem uma liberdade maior do que você teria em um cinema convencional.” 

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As sessões acontecem todas as quartas-feiras e recebem cerca de 60 a 70 pessoas. A entrada é gratuita e a reserva é feita pelo site apenas para controlar a capacidade. Quando a sessão lota, parte do público permanece no bar. 

A escolha dos títulos também passou por um processo de aprendizado. Segundo Calixto, os clássicos nem sempre eram suficientes para tirar o público de casa. A estratégia mudou para filmes que estão em evidência, são comentados nas redes sociais ou acabaram de chegar ao streaming. 

“A gente entendeu que os filmes que estão sendo comentados nas redes, filmes brasileiros que estão no cinema, que já saíram para o streaming e estão concorrendo ao Oscar, funcionam melhor. A gente sempre trabalha com o que está mais comentado no momento.” 

A programação também cria oportunidades para aproximar gastronomia e cinema. Em algumas sessões, o estabelecimento desenvolve itens inspirados nas obras exibidas. Para uma série solicitada pelo público, por exemplo, foi criado um drink temático. Na exibição de Matilda, houve bolo inspirado no filme. 

A lógica não é transformar o cardápio em uma extensão permanente da programação cinematográfica, mas aproveitar determinados títulos para criar experiências pontuais. 

Para Calixto, a combinação faz sentido porque os dois universos estão ligados ao lazer. “Eu acho que eles estão dentro de uma mesma esfera de lazer e conforto. Comer bem e assistir a um filme legal são coisas que caminham juntas. Quando você consegue unir as duas coisas, é um casamento que funciona demais.” 

Ilustração de um bar com mostra de filmes feita por David Lucas, jovem artista autista da equipe de Conteúdo da Abrasel
Ilustração de um bar com mostra de filmes feita por David Lucas, jovem artista autista da equipe de Conteúdo da Abrasel

Em São Paulo, cinema faz parte da identidade do bar 

A proposta do Soberano Rua do Triunfo é ainda mais ligada ao cinema. Instalado no endereço do tradicional bar e restaurante Soberano, o estabelecimento foi reaberto em 2024 com uma proposta que combina bar, memória e cultura cinematográfica. 

O proprietário, Marcelo Colaiácovo, define o negócio como “bar e museu de cinema”. As exibições ocorrem normalmente todas as semanas, muitas vezes com películas em formatos como 35 milímetros, 16 milímetros e Super-8, além de sessões digitais. 

A relação com o cinema não surgiu apenas como estratégia comercial. Colaiácovo  teve contato direto com a chamada Boca do Cinema e trabalhou como assistente de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.  

A história do antigo Soberano também está relacionada à cena cinematográfica paulistana. “Era uma ideia antiga, fazer uma espécie de museu da Boca do Cinema, o cinema feito nessa região a partir dos anos 1950”. 

A programação prioriza produções brasileiras, especialmente filmes ligados ao cinema paulista e à Boca do Cinema, antes de avançar para o cinema independente internacional. “Predominantemente, a ideia é sempre levantar a bola do cinema feito aqui, o cinema da Boca, o cinema paulista, o brasileiro, depois o cinema independente mundial. Essa é a ordem de importância”, conta Colaiácovo. 

As sessões são gratuitas e comportam aproximadamente 70 pessoas sentadas. O público reúne cinéfilos, estudantes, profissionais do cinema, artistas e moradores da região. A diversidade também é parte da proposta do estabelecimento. 

Segundo o proprietário, a iniciativa ajuda a criar uma comunidade em torno do espaço. Pessoas que chegam para uma sessão acabam conhecendo frequentadores de outros eventos, como lançamentos de filmes de skate, apresentações musicais e atividades culturais. “Vai misturando: gente da música, das artes plásticas, da cultura em geral. Uma ponte muito interessante acontece quando um ator veterano que trabalhou com os cineastas da Boca conhece atores jovens de agora. Eu apresento um ao outro.” 

Nesse modelo, o filme não funciona apenas como atração para gerar movimento. Ele também ajuda a estabelecer a identidade do estabelecimento e a criar vínculos entre públicos diferentes. 

Programação cultural também exige equilíbrio com o negócio 

Transformar um bar em espaço de cinema, entretanto, envolve desafios. O principal deles é encontrar o equilíbrio entre a experiência cinematográfica e a dinâmica de um estabelecimento de alimentação e bebidas. 

No Quinteiro, a diferença em relação a uma sala convencional é assumida como parte da proposta. O público pode consumir, conversar e circular, embora isso possa gerar expectativas diferentes entre os frequentadores. “Tem gente que vem achando que é um cinema normal, cadeira confortável, silêncio total. Tem gente que já entende que é um bar, que vai ter barulho, um garçom passando na frente. Já aconteceu de alguém chegar, não gostar e ir embora.” 

No Soberano, a informalidade também faz parte da experiência. A estrutura é adaptada para receber as sessões, e o público pode comer, beber e circular durante a programação.  A programação, portanto, não substitui a operação tradicional do bar. Ela passa a funcionar como uma ferramenta para gerar fluxo e oferecer novos motivos para o público frequentar o estabelecimento. 

A estratégia mostra como a programação cultural pode assumir uma função que vai além do entretenimento. Em um setor no qual experiência, ambiente e relacionamento têm peso crescente na decisão do consumidor, bares e restaurantes passam a disputar também o tempo livre do público. 

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Vinicius Melo

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Sobre Vinicius Melo

Jornalista formado no Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH, com experiência em assessoria de imprensa, produção de conteúdo audiovisual e redação. Atualmente, é repórter na Agência de Notícias da Abrasel.

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