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Reggae se torna identidade para bares que apostam no gênero 

Reggae se torna identidade para bares que apostam no gênero 
Bar do Reggae, em Pindobal-PA | Foto: Spacedudx

Por: Vinicius Melo
Data: 25 de agosto de 2026

Estabelecimentos transformam a música jamaicana em programação, experiência e expressão cultural 

O reggae ocupa um espaço particular na cultura brasileira. Em algumas regiões, o gênero ultrapassou os limites da música e passou a fazer parte da identidade local, influenciando a dança, a programação cultural e a forma como o público se relaciona com os espaços de lazer.  

Em São Luís, no Maranhão, essa relação tem uma dimensão especialmente forte. O reggae chegou à capital maranhense na década de 1970 e foi incorporado à cultura local, sobretudo nas periferias, com características próprias, como a dança a dois, conhecida pelo estilo “agarradinho”. Em 2023, a cidade recebeu oficialmente o título de Capital Nacional do Reggae, reconhecimento da importância do gênero para a cultura local. 

No Pará, a proximidade histórica com o Maranhão também contribuiu para a circulação da música jamaicana. A tradição dos discos de vinil, DJs, equipes e radiolas ajudou a consolidar o reggae na região. A programação do Festival ‘Tributo a Bob Marley’, realizada anualmente em Belém, ajuda a manter essa tradição ao reunir DJs, colecionadores, artistas e representantes da cultura reggae de diferentes estados. 

Da Jamaica para a praia de Pindobal 

A relação do estilo musical jamaicano com a cultura paraense aparece, também, em bares e restaurantes. Às margens da praia de água doce Pindobal, em Belterra/PA, o Bar do Reggae Pindobal é um exemplo prático disso. 

Com pouco mais de um ano de existência, o estabelecimento nasceu após uma viagem do proprietário, Janderson Batista, à Jamaica. Inspirado pelos elementos da música presentes no país caribenho, Janderson trouxe ideias para abrir seu próprio bar em terras paraenses. “Eu viajei para a Jamaica e tive uma experiência muito positiva, que me motivou a criar um projeto parecido com alguns que eu visitei em Kingston. Também fui a Negril, estive em vários lugares lá que me deram muitas referências para abrir meu próprio negócio”, conta o proprietário. 

A identidade aparece na decoração, no uniforme da equipe e na programação musical. Aberta de quinta a domingo, a casa reserva o último dia do final de semana para shows ao vivo de reggae. Outros estilos também aparecem na programação, conforme a demanda. No cardápio, a casa combina petiscos com ingredientes e preparos associados à região Norte. Entre os itens estão camarão, tacos de peixe, macaxeira e açaí com camarão. Nas bebidas, o bar trabalha com cervejas tradicionais e artesanais, além de drinks alcoólicos e não alcoólicos. 

O espaço também se beneficia da localização turística. O bar fica à beira da praia e recebe moradores e visitantes hospedados em pousadas e resorts próximos. Segundo Janderson, o público inclui diferentes faixas etárias e procura uma experiência diferente da oferta tradicional. “Nosso bar é aberto a todos os públicos. O que a gente percebe é que a maioria das pessoas que vem aqui buscam experimentar nossos drinks locais. É uma galera que gosta mais de uma cena alternativa, que não quer vir num lugar e encher a barriga de feijão com arroz. Ela vem tomar uma cervejinha, tomar um drink, pedir um petisco, uma batata frita, um camarãozinho”, conta Janderson. 

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Uma identidade construída ao longo de décadas 

A relação do reggae com o Norte e o Nordeste brasileiro ajuda a explicar por que o gênero encontrou espaço em estabelecimentos que vão além da simples reprodução de músicas jamaicanas. Em São Luís, o ritmo ganhou características próprias e se tornou elemento de identidade cultural.  

Em Belo Horizonte, porém, a relação entre reggae e negócios de alimentação e entretenimento assume outra configuração. A Casa Floreana, que tem três anos de mercado, trabalha com diferentes vertentes musicais, do brega ao black music, passando pelo groove e pelo reggae. O gênero não define sozinho a identidade do espaço, mas tem lugar fixo na agenda, com pelo menos uma noite por mês dedicada à música jamaicana. 

Para o sócio Gabriel Assad, a escolha tem também uma dimensão pessoal. Ele atua como músico ligado à música jamaicana há cerca de duas décadas e mantém trabalhos relacionados ao ska e ao reggae. A ligação com o gênero influenciou a decisão de preservar espaço para esse repertório dentro da programação da casa. 

A Casa Floreana também mantém uma relação com a cena local por meio da banda Bond do Dub, que utiliza a estrutura do estabelecimento para desenvolver seu trabalho.  

Nas noites dedicadas ao reggae, a casa combina DJs e apresentações ao vivo e utiliza elementos visuais associados ao gênero, sem transformar o espaço permanentemente em uma casa temática. 

Bar de Reggae - Ilustração feita por David Lucas, jovem artista autista da equipe de Conteúdo da Abrasel
Ilustração feita por David Lucas, jovem artista autista da equipe de Conteúdo da Abrasel

Entre cultura e sustentabilidade 

Manter uma programação cultural específica, no entanto, envolve desafios que vão além da afinidade dos proprietários com determinado gênero musical. Para Gabriel, o reggae ainda enfrenta dificuldades para ocupar espaços privados de Belo Horizonte. Na avaliação dele, o gênero ficou muito associado às ruas e perdeu parte da presença que já teve na cena noturna da cidade. 

Há também uma questão econômica. Gabriel afirma que existe uma percepção de que parte do público do reggae consome menos no bar e tem menor disposição para pagar ingressos mais caros. Para um estabelecimento que precisa equilibrar custos de operação, equipe, atrações e consumo, essa característica interfere na frequência com que a casa consegue promover eventos do gênero. 

Ainda assim, a Casa Floreana mantém a noite mensal dedicada ao estilo. A decisão representa uma tentativa de conciliar a sustentabilidade do negócio com a contribuição para a cena cultural. 

O contraste entre os estabelecimentos mostra diferentes formas de transformar música em experiência. Em Pindobal, o reggae está no centro do conceito e se conecta à história pessoal do proprietário, à viagem à Jamaica e ao turismo da região. Em Belo Horizonte, o gênero ocupa um espaço dentro de uma programação mais ampla, mas encontra no estabelecimento uma plataforma para artistas e iniciativas da cena local. 

Para os dois negócios, a música deixa de ser apenas trilha sonora e passa a participar da construção da experiência oferecida ao consumidor.  

É justamente nessa interseção entre cultura, entretenimento e consumo que bares e restaurantes encontram novas possibilidades para criar identidade e se diferenciar em um mercado cada vez mais competitivo. 

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Vinicius Melo

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Sobre Vinicius Melo

Jornalista formado no Centro Universitário de Belo Horizonte - UniBH, com experiência em assessoria de imprensa, produção de conteúdo audiovisual e redação. Atualmente, é repórter na Agência de Notícias da Abrasel.

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