Por Vinicius Melo
Data: 2 de julho de 2026
Com música, dança e gastronomia, estabelecimentos apostam num ambiente tipicamente nordestino para fidelizar clientes, mesmo diante dos desafios de um mercado de nicho
Música ao vivo, pista cheia, gastronomia nordestina e um ambiente pensado para aproximar as pessoas. Em diferentes cidades brasileiras, bares especializados em forró apostam em uma experiência que vai além dos shows para conquistar clientes e fortalecer a identidade do negócio.
Ao investir em uma programação exclusiva e na valorização da cultura nordestina, essas casas transformam o entretenimento em um diferencial competitivo, mesmo diante dos desafios de um mercado de nicho.
Paixão e laços afetivos mantêm casas tradicionais ativas
Em São Paulo, o Canto da Ema completa 25 anos de funcionamento com uma proposta que nunca mudou: oferecer atrações de forró. Paulo Rosa, produtor artístico da casa, conta que a escolha sempre esteve mais ligada à paixão pelo ritmo do que a uma oportunidade de mercado. “O forró, mais do que um grande negócio para a gente, é uma grande paixão. O resultado sempre ficou em segundo plano. Primeiro, sempre foi fazer o forró direito”, afirma.
Para Paulo, o gênero permanece como um mercado bastante segmentado. Embora faça parte da identidade cultural brasileira, tem recebido pouca exposição na mídia, o que limita a divulgação e dificulta a conquista de novos públicos.
A realidade também faz parte da rotina da Sala de Reboco Bar e Comedoria, em Recife. Há 27 anos dedicada ao forró, a casa nasceu da influência do irmão de Rinaldo Ferraz, proprietário da casa. Atualmente, o estabelecimento mantém apresentações todas as sextas, sábados e domingos, mas enfrenta desafios semelhantes.
“Eu mantenho na raça. Antigamente era mais fácil lançar novos nomes. Hoje, quando a gente traz um artista consagrado, a casa lota. Quando aposta em alguém que ainda está começando, a situação fica mais difícil”, relata.

Muito além da música
A ambientação, a gastronomia e as oportunidades de interação ajudam a construir uma identidade própria e fazem parte da estratégia para diferenciar o negócio. No Canto da Ema, a decoração busca referências à cultura nordestina sem recorrer a estereótipos. Elementos em tecido de chitão e peças artesanais dividem espaço com um cardápio inspirado na culinária regional, que reúne pratos como baião de dois, escondidinho e tapioca. Além disso, a casa oferece aulas de dança, uma das principais portas de entrada para novos frequentadores.
Segundo Paulo Rosa, a dança representa um dos maiores diferenciais da experiência proporcionada pelo forró. “As pessoas vão muito para conhecer outras pessoas. O forró permite isso porque basta convidar alguém para dançar. Existe uma aproximação muito natural, sempre com respeito, e isso acaba criando um ambiente bastante acolhedor.”
Em Recife, a proposta segue o mesmo princípio. Inspirada na canção “Sala de Reboco”, de Zé Marcolino em parceria com Luiz Gonzaga, a casa preserva uma estética simples, semelhante às tradicionais residências do interior nordestino. Para Rinaldo Ferraz, essa identidade fortalece a conexão entre o público e a cultura do forró.
Ele destaca ainda que a dança exerce um papel importante na vida de muitos frequentadores. “Recebo pessoas que dizem que estavam enfrentando problemas de depressão e vieram para dançar. A dança ajuda muito. Além disso, existe a oportunidade de conhecer pessoas e viver uma cultura que conta a história do Nordeste.”
Mercado de nicho exige criatividade
Manter uma programação exclusivamente dedicada ao forró exige estratégias diferentes das adotadas por casas com atrações variadas. Como o público costuma ser bastante fiel, mas limitado, os empresários precisam encontrar formas de manter o interesse dos clientes e ampliar seu alcance.
No Canto da Ema, uma das iniciativas consiste em convidar artistas que não pertencem originalmente ao universo do forró, mas possuem alguma ligação com o gênero. A casa também promove apresentações voltadas para diferentes públicos, incluindo eventos dedicados à comunidade LGBTQIA+, como forma de ampliar a diversidade de frequentadores.
Outro desafio está na renovação dos artistas e do próprio público. Segundo Paulo Rosa, durante muitos anos a casa era frequentada principalmente por jovens universitários. Hoje, esse perfil envelheceu e a chegada de novos clientes acontece em ritmo mais lento. “Os artistas também se renovaram muito pouco. Isso dificulta criar uma identificação com as novas gerações.”
Na Sala de Reboco, além das redes sociais, as parcerias com empresas de turismo ajudam a ampliar a divulgação da casa, especialmente entre visitantes que chegam ao Nordeste interessados em conhecer espaços tradicionais de forró.
Ferraz também aposta na transmissão ao vivo de parte dos shows pelo Instagram e pelo YouTube como forma de fortalecer o relacionamento com o público e despertar o interesse de novos visitantes.
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As festas de São João costumam representar um período de maior visibilidade para o forró, embora os efeitos sejam diferentes em cada região do país. Em Recife, a temporada atrai turistas de várias partes do Brasil, muitos deles indicados por agências e por outros visitantes que já conheceram a casa. “Nessa época, rockeiro, pagodeiro, todo mundo vira forrozeiro”, brinca Rinaldo Ferraz.
Já em São Paulo, o aumento da procura divide espaço com uma concorrência muito maior. Paulo Rosa explica que clubes, escolas, quermesses e eventos temporários disputam o mesmo público e também os principais artistas, que muitas vezes seguem para apresentações no Nordeste durante o período junino.
Apesar dos desafios financeiros e da concorrência, os empresários acreditam que a força do forró está justamente na experiência que oferece.

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