Por Vinicius Melo
Data: 30 de abril de 2026
Adequações a nova jornada refletiriam, também, no bolso do consumidor
Em discussão no Congresso Nacional, a proposta pelo fim da escala 6×1 teria impactos diretos nos pequenos negócios do setor de alimentação fora do lar. Estabelecimentos enfrentariam o aumento de custos com a contratação de novos funcionários, reajustes nos valores dos pratos pedidos e o crescimento da informalidade e da ilegalidade no setor.
Acelerado pela proximidade com a eleição presidencial, o debate sobre as mudanças na escala de trabalho tem girado em torno de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e um Projeto de Lei enviado ao Congresso pelo Governo Federal, que estabelecem, em linhas gerais, o fim da escala de trabalho 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas.
Necessidade de novas contratações e aumento de despesas
Com as mudanças trabalhistas à vista no horizonte, proprietários de pequenos estabelecimentos já se preocupam com os impactos que podem ser gerados pela nova legislação. Lucas Amstalden é sócio, junto com sua esposa, da Pizza67, pizzaria localizada em Campo Grande/MS.
Com 4 anos de mercado, o proprietário conta que o negócio nasceu para ser pequeno, mas o sucesso de suas pizzas artesanais fez com que ele escalonasse. Atualmente com 5 funcionários, a pizzaria funciona todos os dias das 17h30 às 22h30, com o foco voltado para o delivery.
Todos os 5 funcionários da Pizza67 trabalham 36 horas semanais, que são divididas em 6 dias. Para Lucas, a mudança na jornada semanal não é um problema, mas a inclusão de mais um dia de folga com o fim da escala 6×1 geraria a necessidade de novas contratações. “A mudança de escala não é viável, porque eu vou perder 1 dia. Por mais que eu esteja adequado a quantidade de horas semanais, eu vou ter a redução na quantidade de dias. Como a gente trabalha 30 dias por mês, eu preciso contratar pessoas para repor essa folga extra, então querendo ou não, eu vou ter que colocar mais 2 funcionários”, afirma ele.
Com o custo da folha de pagamento em aproximadamente R$15 mil, sendo todos os funcionários CLTs, Lucas prevê um aumento de 40% nas despesas com a contratação de novos funcionários. “Meu custo vai sair de R$15 para, pelo menos, R$25 mil, e para cobrir esse custo, eu vou ter que vender de 35 a 40 mil reais a mais por mês”, revela.

Aumento de custos impacta preço dos pratos
A contratação dos novos funcionários com o fim da escala 6×1 geraria a necessidade de um aumento de 30% nas vendas, de acordo com as contas de Lucas. E em um mercado cada vez mais disputado, o empresário vê como inevitável o aumento de 15 a 20% no preço dos pratos ofertados. “Num primeiro momento a gente precisa ter o repasse, não tem jeito, mesmo porque não tem como crescer o número de venda do dia pra noite”, afirma.
Mesmo com um estabelecimento mais consolidado em tempo de mercado, Edilson da Silva, sócio proprietário da Lanchonete do Dênis, também vê como irremediável o repasse no preço dos pratos com o fim da escala 6×1. “Se o Governo acha que a pessoas tem que descansar mais, e eu também acho que elas têm, por que não mexe só nas horas trabalhadas? A grande dificuldade do pequeno é a escala. Vai ter aumento de preço. Se aumenta o meu custo, se dificulta a minha operação, eu vou ter que repassar”, afirma ele. O empresário também demonstra preocupação com as vendas, que, segundo ele, já estão apertadas por conta da alta inflação e de um endividamento das pessoas.
A Lanchonete do Dênis possui 28 anos de existência e funciona todos os dias, das 18h às 02h, em sistema delivery e presencial. Localizado em Viçosa/MG, o estabelecimento possui 6 funcionários, sendo 2 atendentes, 3 cozinheiros e 1 motoboy. Especialmente em dias de maior movimento, os sócios já trabalham no atendimento ao público e na cozinha.
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Ilegalidade preocupa empreendedores
Outro temor dos empresários com o fim da escala 6×1 é o aumento da ilegalidade no setor. Lucas, da Pizza67, revela que atualmente já enfrenta dificuldades em manter um preço atrativo na disputa por consumidores, e demonstra preocupação com a necessidade de aumentar os preços de seus pratos.
“O nosso segmento tem uma concorrência muito grande, uma concorrência muitas vezes desleal. Um exemplo, em volta da minha pizzaria tem outras 4 pizzarias. Eu sou o único que tem CNPJ, sou o único que registra funcionário, o único que tira Nota Fiscal e o único que paga imposto. As outras 3, os caras trabalham em casa, estão com a família, então como eu vou concorrer em termos de preço com esse cara?”, desabafa ele.
Para Edilson da Silva, da Lanchonete do Dênis, o causador desses fatores está na falta de debate na proposta do fim da escala 6×1. “O maior problema é quando a legislação vem engessada, ela acaba te jogando para trabalhar de forma irregular”, afirma.

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