Por: Vinicius Melo
Data: 24 de setembro de 2026
Clubes de conversação em outras línguas ocupam espaços em estabelecimentos de alimentação fora do lar e criam ocasiões de consumo
Aprender ou praticar um novo idioma pode ser também uma forma de conhecer pessoas, ocupar a cidade e descobrir novos bares. Encontros de conversação em inglês, espanhol, francês e outras línguas têm levado grupos a estabelecimentos de diferentes perfis e criado uma dinâmica que combina convivência, entretenimento e consumo.
Em São Paulo/SP, o Clube Poliglota Sampa mantém encontros há mais de dez anos e utiliza diferentes espaços para reunir participantes. Em Brasília, o Black Sheep Breja Studio promove, às quintas-feiras, encontros do Mundo Lingo, em uma parceria que, segundo o proprietário da casa, já representa uma fonte de novos clientes e retorno.
A dinâmica varia de acordo com o grupo e o estabelecimento. No Clube Poliglota Sampa, não há cobrança de inscrição nem necessidade de confirmação.
Os participantes chegam ao local e são direcionados para mesas de acordo com o idioma que desejam praticar. Inglês, espanhol e francês estão entre os mais procurados, enquanto italiano e alemão aparecem em ocasiões específicas.
O bar como ponto de encontro
Luiz Henrique Holanda, representante do Clube Poliglota Sampa em São Paulo/SP, explica que a organização procura criar um ambiente no qual os participantes possam conversar de maneira espontânea.
Essa organização dos grupos não depende de uma estrutura fixa. Aos domingos, por exemplo, bandeiras indicam o idioma de cada mesa. Quem deseja praticar outra língua pode mudar de grupo ao longo do encontro.
Aos sábados, Holanda atua como um intermediador e procura organizar os participantes por idioma e, quando possível, pelo nível de conhecimento.
Atualmente, os encontros próprios do grupo ocorrem em diferentes dias e locais da capital paulista. Aos sábados, o grupo se reúne no Centro Cultural São Paulo, com média de 20 a 30 participantes.
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Aos domingos, o encontro é no Violeta Bar e chega a reunir cerca de 50 pessoas. Às terças-feiras, o Sampa Bar, em Moema, recebe um grupo e às quintas-feiras é a vez do Sesc Belém, na Zona Leste de São Paulo.
A relação com os estabelecimentos surgiu de maneiras diferentes. No Violeta Bar, por exemplo, o grupo frequentava anteriormente uma unidade do Starbucks que fechava mais cedo. Depois dos encontros, parte dos participantes migrava para o bar vizinho. Com o tempo, o proprietário cedeu o segundo andar para as reuniões.
No modelo do Clube Poliglota Sampa, porém, não existe uma parceria comercial baseada no consumo. “Eu sempre deixo claro para o dono do bar que eu posso prometer fluxo, mas não posso prometer consumo”, explica Holanda.
Eventos criam ocasiões de consumo
Em Brasília/DF, a experiência do Black Sheep Breja Studio mostra outro formato de parceria. O estabelecimento recebe o Mundo Lingo, evento que integra uma estrutura internacional.
O encontro ocorre todas as quintas-feiras e tem organização própria, com um gestor local responsável pela produção. Para Matos, a atividade se encaixa no perfil cultural do estabelecimento, que também recebe apresentações musicais, stand-up comedy, filmes e outras iniciativas.
O proprietário afirma que os encontros aumentaram o movimento da casa. O público também apresenta características diferentes das observadas em outros dias, com presença maior de pessoas mais jovens. Por isso, o estabelecimento passou a combinar o encontro com outras ações para ampliar o tempo de permanência e estimular o consumo.
Uma das estratégias é o happy hour, com promoção durante um período específico. Outra é o karaokê multilíngue, que permite aos participantes cantarem em diferentes idiomas.
“O perfil desse público é um pouco diferente do nosso perfil tradicional. A nossa faixa etária habitual é um pouco mais alta, e esse público mais jovem dos encontros tem um comportamento de consumo diferente, então precisamos de estratégias para manter esse consumo”, afirma Matos.
A experiência mostra que a atividade pode cumprir uma função que vai além da ocupação de uma data da semana. O evento cria um motivo específico para a visita e oferece ao estabelecimento a oportunidade de apresentar sua estrutura, cardápio e proposta para pessoas que talvez não conhecessem a casa.

Retorno transforma experiência em relacionamento
Além de atrair consumidores para um evento específico, os encontros podem contribuir para a formação de uma relação mais duradoura com o estabelecimento.
No Black Sheep, Matos estima uma taxa de retorno de aproximadamente 1 a cada 3 pessoas que participam dos encontros. “A taxa hoje está em torno de 30% de retorno”, afirma.
Para o empresário, esse comportamento também reforça o potencial do evento como ferramenta de divulgação. O participante conhece o espaço por causa da atividade de conversação e pode voltar em outra ocasião, inclusive acompanhado de outras pessoas.
O movimento se conecta a uma tendência mais ampla de bares e restaurantes que buscam criar motivos de visita além da alimentação e das bebidas. Aulas, música, cinema, jogos, encontros culturais e atividades de interesse específico ajudam a transformar o estabelecimento em um espaço de convivência.
No caso dos encontros de idiomas, o diferencial está na combinação entre aprendizado informal e socialização. Para o consumidor, o bar deixa de ser apenas o destino final de uma saída e passa a fazer parte da própria experiência. Para os estabelecimentos, o formato pode representar uma alternativa para ocupar dias e horários específicos, alcançar novos públicos e estimular o retorno.
