Por Vinicius Melo
Data: 7 de julho de 2026
Nova legislação e mudança de hábitos de consumo reforçam valorização do cacau e estimulam estabelecimentos a ampliar opções
Muito além das tradicionais barras e bombons. Cafeterias, confeitarias e restaurantes têm apostado na versatilidade do cacau para criar receitas autorais, valorizar produtos regionais e atender consumidores que buscam chocolates com maior teor de cacau, versões veganas e opções com menos açúcar.
O movimento acompanha uma demanda crescente por produtos que conciliem sabor, qualidade e diferentes necessidades alimentares, além de seguir critérios Lei nº 15.404/2026. A nova legislação estabelece percentual mínimo de 35% de cacau para que um produto seja comercializado como chocolate.
O cenário favorece iniciativas que exploram o ingrediente de forma mais ampla, desde o cultivo até sua aplicação em diferentes preparos.
Cacau amplia possibilidades no cardápio
Na Ilha do Combu, em Belém/PA, o Filha do Combu reúne todas as etapas da produção no mesmo espaço, do cultivo do cacau orgânico ao atendimento dos visitantes. “São vários negócios dentro do Filha do Combu. Tem uma unidade de beneficiamento de amêndoas, a fábrica de doces e chocolate, a loja para vendas, a empresa de turismo, e tudo funcionando dentro do mesmo espaço”, explica Mário Carvalho, coordenador do empreendimento.
No estabelecimento, o cacau aparece em doces, bebidas, harmonizações e até em receitas salgadas. “O brigadeiro é o carro-chefe. Temos ainda receitas autorais, que eu criei, que é uma releitura da cartola pernambucana, o chapéu marajoara, que leva canela, banana da terra, queijo de marajó e chocolate. Tem uma versão vegana também, o chapéu de palha, que eu uso mais cacau e o chocolate não tem leite”, conta.
Outra criação da casa incorpora o cacau diretamente à massa da tapioca, que recebe diferentes recheios. O cardápio inclui ainda mocaccino com brigadeiro, servido quente ou gelado, chocolate quente e harmonizações entre chocolates e bebidas produzidas na região, como fermentados de açaí.
Além do chocolate, ingredientes amazônicos como castanha-do-pará, cupuaçu e cumaru ampliam as combinações e ajudam a construir uma identidade regional para as receitas.
A inovação também avança para os pratos salgados. O estabelecimento finaliza os testes de um curry com chocolate produzido no Combu, que utilizará o ingrediente tanto no molho quanto na finalização da receita. “Estou trabalhando a criação de pratos salgados com chocolate, com o uso tanto dentro do molho, como na finalização. Já está testado, vamos incluir no cardápio em breve, o curry de chocolate do Combu, uma comida salgada que vai ter cogumelo, carne e demais ingredientes”, revela Mario.
Na Doce Vanilla, em Lauro de Freitas/BA, o chocolate também ocupa posição central no cardápio. A diretora Adriana Brites afirma que o ingrediente aparece em diferentes preparações, mas sempre como protagonista. “O chocolate aparece em tortas, bolos, brownies, sobremesas em taça e em diversas combinações com frutas, castanhas e cafés. É um ingrediente que permite inúmeras possibilidades, mas acreditamos que ele deve ser o protagonista da receita, e não apenas um complemento.”

Qualidade ganha espaço entre consumidores
A nova legislação sobre cacau confirma uma prática já adotada por diversos estabelecimentos que priorizam chocolates com maior concentração da fruta. Na Doce Vanilla, essa escolha acompanha a história da empresa. “Para nós, essa mudança apenas reforça algo em que sempre acreditamos. Desde a abertura da Doce Vanilla, há 19 anos, utilizamos chocolates com, no mínimo, 50% de cacau. Nunca fizemos essa escolha porque era uma tendência ou uma exigência legal, mas porque entendemos que a qualidade da matéria-prima define o resultado final”, conta Adriana.
Segundo a diretora, o consumidor também passou a prestar mais atenção à composição dos produtos. Além do sabor, informações como origem do cacau, percentual utilizado e equilíbrio das receitas influenciam a decisão de compra. “O consumidor está mais informado e faz perguntas sobre a origem dos ingredientes, o percentual de cacau utilizado, a composição das receitas e as opções disponíveis. Vejo isso como um movimento muito positivo, porque valoriza quem trabalha com transparência e qualidade.”
Para a confeiteira, inovar nem sempre significa recorrer a ingredientes inusitados, mas compreender melhor as características do cacau. “Na minha opinião, a inovação está em conhecer melhor o ingrediente, trabalhar diferentes origens de cacau, respeitar seus perfis de sabor e desenvolver receitas cada vez mais equilibradas”, afirma.
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Opções inclusivas ampliam o público
Além da busca por chocolates com maior teor de cacau, os estabelecimentos também observam crescimento da procura por produtos adaptados a diferentes restrições alimentares. A redução do açúcar e a oferta de versões veganas passaram a integrar a estratégia de parte do setor.
No Filha do Combu, a maior parte dos chocolates não leva leite, enquanto uma nova linha de produtos utiliza xilitol como adoçante e oferece versões zero açúcar com 64% e 79% de cacau.
Na Doce Vanilla, Adriana Brites afirma que o interesse por sobremesas com menos açúcar cresce há alguns anos e reflete um consumidor que busca conciliar prazer e escolhas alimentares mais conscientes. “As pessoas continuam buscando momentos de prazer, mas passaram a fazer escolhas mais conscientes. Hoje existe um interesse maior por sobremesas em que o açúcar não esconda o sabor dos ingredientes.”
Segundo ela, o desenvolvimento de receitas para públicos com restrições alimentares faz parte da evolução do cardápio e representa uma forma de ampliar o acesso às sobremesas. “Existe uma demanda crescente por produtos com menos açúcar ou sem adição de açúcar, e é importante que esse público também encontre opções elaboradas com o mesmo cuidado e qualidade. Incluir é permitir que mais pessoas possam compartilhar um momento à mesa sem abrir mão do prazer de uma boa sobremesa.”

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