Por Vinicius Melo
Data: 7 de maio de 2026
Estabelecimentos atravessam gerações, preservam receitas regionais e fortalecem a identidade gastronômica brasileira
O amor de uma mãe por seus filhos é algo que não pode ser medido, mas transparece em gestos, palavras e pratos. Ao abrir restaurantes e dar início a projetos gastronômicos, matriarcas de famílias brasileiras transportam o gesto de carinho de preparar almoços e jantares em suas casas para a mesa de outros brasileiros.
Muitas vezes com a proposta de oferecer comidas caseiras, os restaurantes familiares carregam consigo técnicas culinárias, segredos de preparo e a passagem de receitas.
Herança que atravessa gerações
O Casa de Juja é um exemplo de restaurante que preserva suas tradições. Com 13 anos de existência, o estabelecimento foi criado por Ana Lula, a Juja, mãe de uma família de 3 filhos.
Desgastada pelo longo tempo administrando o Restaurante ‘Antigamente’, no centro histórico de São Luís, no Maranhão, Ana decidiu abrir em sua casa o Ateliê Gastronômico Casa de Juja, com o foco voltado para um ambiente mais familiar. Lula Fylho, filho de Ana, conta que o ateliê era um local pequeno, de 15 lugares, bem reservado. “Não tinha cardápio, só funcionava com reserva, a pessoa tinha que ligar antes, dizer o que queria comer, e aí minha mãe ia e montava o prato. Ou seja, ela criava sob medida as receitas”, destaca.
Com o pedido em mente e demanda controlada, Ana passou, com o tempo, a criar receitas. “Ela criou o arroz do mar. A Delícia do Mar, a Ilha Magnética, que é uma homenagem a uma música aqui de São Luís, chamada ilha magnética. Um dia ela teve um sonho com uma receita e a preparou, e aí o nome ficou o Sonho de Juja”, revela ele.
Lula é o atual administrador da Casa de Juja, função que divide com sua irmã, Luana Lula, após o falecimento da mãe, em 2021. Os filhos assumiram o restaurante com a proposta de não deixar o projeto acabar, mesmo que em um formato diferente. “Eu queria muito abrir o restaurante para que outras pessoas, que desejassem ir, fossem sem a necessidade de fazer reserva”, conta Lula.
O novo formato causou uma desconfiança inicial na equipe do ateliê, mas a ideia de Lula e Luana foi para a frente e o sucesso foi rápido. “A gente fez ficha técnica de tudo, a gente estabeleceu um padrão, a gente fez a organização. Resumindo, minha mãe tinha um faturamento de em média R$ 30 mil por mês e a gente aumentou o faturamento para R$ 90 mil p/mês abrindo a casa”, revela Lula.
O reconhecimento atingido pelo Casa de Juja fez com que novas unidades fossem abertas. Atualmente, o estabelecimento possui sedes em Atins, Tutoia e São Luís, além de um buffet, o Vila Encantada, também na capital maranhense. A oferta de pratos segue o mesmo cardápio desenvolvido por Juja, com algumas adições. Lula revela que encara o projeto da mãe como uma missão de vida. “Antes dela (Ana) falecer, eu ouvi uma frase que dizia assim: ‘as pessoas morrem duas vezes. Uma quando partem e outra quando falam o nome dela pela última vez’. E eu estabeleci como missão de vida não deixar que falem o nome da minha mãe pela última vez, conta.
Sobre o legado deixado pela mãe, Lula destaca que a força de vontade e a resiliência da Juja ensinaram muito para ele e sua irmã. Além disso, ele aponta como a matriarca impactou a gastronomia maranhense. “Ela amava e ela queria elevar o nível da gastronomia maranhense, então tudo para ela tinha que ter boa apresentação, tinha que ter o cuidado no preparo, tinha que ter produtos frescos”, revela.
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Impacto na culinária regional
A influência na gastronomia local também é um mérito do ‘Dona Lucinha’. Fundado em 1990 por Maria Lúcia Clementino, a Dona Lucinha, o restaurante que leva seu nome é um dos mais tradicionais de Belo Horizonte/MG.
Nascida no interior de Minas Gerais, numa cidadezinha chamada Serro, a matriarca de uma família de 11 filhos construiu seu legado na culinária mineira a partir de suas vivências. Professora de escola rural por anos, Dona Lucinha se empenhava em garantir a segurança alimentar de seus alunos, preparando lanches com alimentos mineiros.
Quando construiu o cardápio do seu restaurante, Dona Lucinha fez uma pesquisa dos pratos que mais espelhavam a formação da cozinha mineira dentro da sua região. Márcia Nunes, filha e atual gestora do restaurante em Belo Horizonte, conta que sua mãe buscou até uma historiadora para lhe ajudar com a pesquisa.
O resultado foi uma casa que reflete a tradição culinária de Minas Gerais e o sucesso da matriarca, que foi convidada inúmeras vezes para organizar e participar de festivais gastronômicos no Brasil e no exterior.
Atualmente, o Dona Lucinha possui sedes em Belo Horizonte e São Paulo, no bairro Moema. Além delas, há ainda uma unidade na capital mineira com funcionamento só por delivery. Após o falecimento da mãe, há 7 anos, Márcia Nunes assumiu a gestão da unidade em BH e mantém a tradição estabelecida, com pouquíssimas mudanças no cardápio e no modo de servir, saindo do buffet para à la carte.

Gestão em família
No Macapá, capital do Amapá, o restaurante familiar Divina Arte segue em um formato parecido. São duas unidades, uma mais no centro da cidade e outra na orla do rio Amazonas. Socorro Azevedo, proprietária do estabelecimento e matriarca de uma família de 3 filhos, é quem administra a matriz. Liziane e Lidiane, filhas, cuidam do segundo local, que conta ainda com a participação de Laércio, filho, na organização do negócio.
“O meu filho toma conta do setor mais chato, que é o de contratação de funcionários e de pagar contas. A minha filha mais velha é aquela pessoa que lida direto com o cliente, que faz as vendas. Sempre foi ela que fechou os eventos, ela oferece pratos, ela faz propaganda do prato. E a minha filha mais nova é a que cozinha junto comigo”, explica Socorro.
Com mais de 20 anos de mercado gastronômico, o Divina Arte trabalha com salgadinhos, bolos e pratos regionais. O restaurante preza por insumos do próprio Estado e, na medida do possível, compra com fornecedores locais, o que garante alimentos frescos e a sensação de comida caseira. “No meu restaurante os clientes vêm pelo sabor caseiro. Eu tenho que ter todo dia filé, aqui a gente usa o filé de búfalo, mas eu tenho vatapá, tenho a maniçoba, peixes… Nós temos também um camarãozinho aqui da região, servido com jambu”, conta a Dona Socorro.
O desenvolvimento de novos pratos passa por toda a família. Socorro afirma que a receita é testada e provada por todos os filhos e funcionários até chegar num consenso sobre a qualidade.
Entretanto, nem tudo são ‘flores’ na relação mãe e filhos, e entreveros também acontecem. “A gente tem as dificuldades do dia a dia. Por exemplo, por ser mãe, eu tenho que administrar e, por ser meio ‘mão de ferro’, as ordens sempre partem de mim. Então, a gente tem dificuldade sim, porque a gente briga, a gente discute, mas no outro dia tem que continuar, porque é daqui que todo mundo vive e o objetivo de todo mundo é manter a empresa”, revela com bom humor a matriarca.

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