Por Vinicius Melo
Data: 5 de maio de 2026
Bares temáticos constroem uma imersão com música e curadoria para atrair fãs e novos ouvintes
Aos fãs de Louis Armstrong, Sidney Bechet, Jelly Roll Morton e tantos outros grandes artistas, opções não faltam para se deliciar com um bom show de jazz. Casas temáticas por todo o Brasil têm apostado na construção de uma experiência única que une decoração, música e comunidade fiel para uma imersão completa no estilo musical.
À medida que reforçam o nicho de fãs de jazz, esses estabelecimentos também atraem novos públicos com a abertura de espaços para estilos instrumentais brasileiros, como o choro e a bossa nova.
Cultura estadunidense influencia estabelecimentos brasileiros
De origem afro-americana, o jazz emergiu no final do século XIX e início do século XX da combinação de diferentes estilos musicais, em especial o blues. De forte caráter representativo, o gênero se tornou uma ferramenta de transformação social e se consolidou como uma das principais expressões da música instrumental mundial.
Inspiradas por esse legado, casas de jazz brasileiras passaram a reproduzir o modelo de clubes tradicionais, como o Blue Note, em Nova York. A marca se expandiu internacionalmente e hoje está presente em 7 países.
No Brasil, Daniel Stain, junto de Luiz Calainho, sócio investidor, foi quem trouxe a marca. Em 2017, o empresário decidiu dar vida ao seu sonho de trabalhar com jazz e, inicialmente, abriu a Blue Note Rio. Com o sucesso da primeira sede, Daniel abriu, em 2019, a Blue Note São Paulo.
Com shows de terça a domingo, a Blue Note é um ambiente espelhado na casa de jazz americana. O empresário conta que a marca é fundamental para a atração de grandes artistas do jazz para o Brasil. “Os caras que são desse mercado do jazz, nem sempre são os gigantes, eles também querem fazer circuitos pela América do Sul. E aí o Blue Note acaba sendo a casa de escolha, porque eles confiam que a casa vai ser uma casa com qualidade”, afirma.
Com um público fiel de jazz, Daniel percebeu que o Brasil oferecia, também, a oportunidade de compor a programação da casa com outros estilos instrumentais. “A gente também tem shows de música brasileira, de Chorinho, de Bossa Nova. A gente foi se adaptando à situação do Brasil”, conta ele.

Consolidação do jazz e novos espaços de experimentação
Em Belo Horizonte, o Café com Letras é um exemplo de como o jazz se integra a outras expressões culturais. Há 30 anos em funcionamento, o espaço reúne apresentações musicais, lançamentos de livros, exposições e encontros artísticos.
Localizado no bairro Savassi, em Belo Horizonte/MG, o Café nasceu com a música em seu cerne, tendo já nos primeiros dias de sua história shows de jazz gratuitos. Bruno Golgher, sócio fundador do Café com Letras, conta que o início foi difícil, mas o sucesso dos primeiros shows ajudou na consolidação do projeto socialmente, o que contribuiu para a entrada de um importante parceiro econômico, o senhor Ajax.
“No dia seguinte a um dos shows passou uma pessoa, que é o senhor Ajax, indo para fisioterapia dele… Ele era uma pessoa que amava música, e infelizmente já faleceu… E ele chegou lá no café e falou: quando tem mais? A gente falou: não vai ter, porque a gente não tem dinheiro. E aí ele começou a pagar os shows, ele foi um mecenas. Aí o Chico Amaral (artista) começou a tocar toda quarta-feira, em todas as semanas”, conta Bruno.
Com o crescimento do público e a regularidade das apresentações, o espaço se consolidou como referência na cena cultural da capital mineira e se tornou autossustentável.
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Do palco ao ecossistema cultural
A experiência acumulada ao longo dos anos levou à criação, em 2003, do Savassi Festival, idealizado por Bruno Golgher. O evento começou como um festival de jazz e música instrumental, mas logo cresceu e ganhou novas camadas.
Ao longo de mais de duas décadas, o festival impactou cerca 300 mil pessoas e hoje se apresenta como um ecossistema cultural que articula música, formação, circulação artística, publicações e ações urbanas. O festival acontece anualmente e, em 2026, ocorrerá de 24 a 31 de maio.
Um dos principais projetos dentro do Savassi Festival é Concurso Jovens Talentos do Jazz. Voltado para artistas até 30 anos, o programa seleciona grupos para participar de festivais e clubes de jazz que integram a rede promotora do projeto, ampliando a circulação e a visibilidade de novos trabalhos autorais.
Outra iniciativa é o Selo de Gravação do Savassi Festival, um programa de comissionamento de composições. “Eu chego para um artista e falo assim, olha, eu gostaria que você compusesse uma obra. E aí eu dou uma bolsa (financeira) para ele, ele compõe uma obra, apresenta no festival e depois a gente grava um disco”, detalha Bruno.
Com o crescimento e expansão do Café com Letras e do Savassi Festival, o empresário criou, há 4 anos, o Clube do Jazz, uma casa de shows vinculada ao Café, mas com programação voltada somente para música instrumental. Aberta de terça-feira a sábado, o Clube é todo caracterizado com detalhes do jazz.

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