Por Flávia Madureira
Data: 22 de julho de 2026
Diante da influência das canetas emagrecedoras no comportamento do consumidor, setor se adapta e encontra no modelo a quilo uma estratégia para manter margens e ampliar oportunidades de venda
O avanço do uso de medicamentos à base de semaglutida, as chamadas “canetas emagrecedoras”, tem alterado a forma como os brasileiros consomem em bares e restaurantes.
De acordo com levantamento da Abrasel, o impacto desses medicamentos já é percebido pela maioria dos empresários. Os dados mostram que 61% dos bares e restaurantes identificaram mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso desses remédios. Entre os principais efeitos estão a redução no consumo de pratos principais e sobremesas, o aumento da procura por porções menores e a escolha por opções mais leves.
A transformação é concreta no dia a dia dos estabelecimentos. Ainda segundo a pesquisa, 56% dos empresários notaram queda nos pedidos de pratos principais, enquanto 65% observaram mudanças no consumo de sobremesas, com casos de redução significativa na demanda. Além disso, 64% registraram aumento no pedido de porções menores e na prática de compartilhar pratos, comportamento que redesenha a experiência de consumo nos salões.
Essa mudança está diretamente ligada ao efeito desses medicamentos, que reduzem o apetite e levam o consumidor a ingerir menos alimentos. O resultado é um novo perfil de cliente: alguém que continua frequentando bares e restaurantes, mas faz escolhas mais moderadas e conscientes. Não se trata, necessariamente, de uma retração, mas de uma nova dinâmica de consumo.
Para o setor, o desafio é claro: como manter rentabilidade diante desse novo contexto de consumo? A resposta, segundo especialistas e análises da Abrasel, está na adaptação. O movimento já começa a ser observado, com ajustes em cardápios, flexibilização de porções e reconfiguração da oferta. E é nesse ponto que o modelo de comida a quilo ganha força.

Comida a quilo: flexibilidade que atende ao novo consumidor
A lógica do restaurante por quilo, em que o cliente escolhe o que consumir e paga exatamente pelo que coloca no prato, dialoga diretamente com esse novo comportamento. Ao permitir porções personalizadas e mais controladas, o modelo atende à demanda por refeições menores, mais leves e diversificadas.
Na prática, isso significa uma vantagem competitiva importante. Em vez de depender de pratos fixos ou porções padronizadas, o restaurante a quilo consegue ajustar a oferta ao apetite real do cliente, reduzindo desperdícios e preservando a margem de lucro. Esse formato também abre espaço para estimular escolhas de maior valor agregado, como ingredientes diferenciados e combinações mais equilibradas.
Além disso, a adaptação ao novo perfil de consumo pode trazer ganhos operacionais. A redução no volume consumido tende a diminuir o uso de insumos por cliente, o que, aliado a uma estratégia de precificação adequada, pode contribuir para o equilíbrio financeiro dos negócios.
Para Andrigo Silva, chef e proprietário do L’amour Restaurante, em Lages (SC), entender esse novo modelo de comportamento do cliente é essencial. “Apesar de ter percebido uma redução na quantidade que o público consome, vejo que o consumo em si não diminuiu, ele apenas mudou. No restaurante, tenho disponibilizado opções mais leves e saudáveis, que têm se encaixado melhor na demanda”.
“É normal que, com o tempo, aconteçam mudanças na dinâmica de consumo. Acompanhar essa tendência do mercado é importante para ajustar a operação conforme necessário”, acrescenta.
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Concurso valoriza modelo e impulsiona negócios
É nesse contexto que o concurso O Quilo é Nosso chega à sua 10ª edição em 2026. Promovida pela Abrasel, a competição é a maior do país voltada exclusivamente para restaurantes a quilo e tem como objetivo valorizar esse modelo de negócio genuinamente brasileiro.
A primeira etapa acontece entre 14 e 24 de julho, quando os restaurantes participantes apresentam um prato especial que integra o bufê e é avaliado por clientes e jurados técnicos. Em seguida, a etapa estadual ocorre entre 3 e 9 de agosto, e a grande final será realizada nos dias 14 e 15 de setembro, durante o Salão Abrasel, em São Paulo.
O concurso atua ainda como uma vitrine para os estabelecimentos. Ao participar, os restaurantes ganham visibilidade, atraem novos clientes e têm a oportunidade de testar receitas e estratégias que podem ser incorporadas ao dia a dia do negócio.
Em um cenário de transformação no comportamento do consumidor, iniciativas como essa ganham ainda mais relevância. Ao valorizar o modelo a quilo, o concurso reforça a capacidade de adaptação do setor e mostra que, mesmo diante de novos desafios, como o avanço das canetas emagrecedoras, há espaço para inovação, crescimento e aumento de rentabilidade.

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