Por Thainá Lima
Data: 28 de janeiro de 2026
Viagens, consumo fora da rotina e estabelecimentos cheios tornam a experiência mais sensível para pessoas com restrições alimentares durante o período de férias
Especialmente o verão, costuma ser associado a descanso, lazer e experiências gastronômicas fora de casa. Para pessoas com restrições alimentares, no entanto, esse momento pode trazer desafios adicionais. Um levantamento da Abrasel mostra que 69% dos estabelecimentos esperam faturar mais no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025. Em relação ao último trimestre deste ano, 56% também projetam crescimento.
Alta temporada intensifica desafios ligados às restrições alimentares
Segundo Luara Balbi, fundadora da Inclua Consultoria Social e especialista em inclusão alimentar, as férias têm um componente emocional que intensifica tanto as boas quanto as más experiências para quem convive com restrições alimentares. “No dia a dia, se algo dá errado, o impacto fica restrito à rotina. Nas férias, quando há planejamento, investimento e expectativa, qualquer falha pode desestruturar completamente a experiência”, explica. Para esse público, a alimentação cotidiana costuma estar organizada, mas nas férias há necessidade de pesquisa prévia, análise de cardápios e busca por informações confiáveis.
Quando a experiência é positiva, o retorno tende a ser duradouro entre consumidores com restrições alimentares. De acordo com Luara, boas vivências durante as férias geram memória afetiva, indicação boca a boca e fidelização. Em contrapartida, falhas nesse contexto deixam marcas profundas. “Além do impacto na saúde, a decepção fica registrada e pode afastar o cliente para sempre”, afirma. Estratégias claras de comunicação em sites, redes sociais e no atendimento de reservas, ajudam o consumidor a planejar com mais segurança a ida a bares e restaurantes.
Para quem não convive diretamente com restrições alimentares, essa complexidade nem sempre é percebida. A estudante Lívia Giudice conta que passou a entender melhor essas dificuldades ao conviver com familiares com intolerâncias. “Para quem não tem restrições alimentares, comer fora é algo simples. Para quem tem, envolve pesquisa, atenção redobrada e preocupação constante”, relata. Durante um período de férias, ela acompanhou uma parente com doença celíaca em um restaurante renomado, mas um detalhe aparentemente pequeno, o uso de shoyu com glúten, foi suficiente para gerar insegurança e tensão até o fim do dia.
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O glúten é uma proteína presente em cereais como trigo, cevada e centeio, muito comum em diversas preparações alimentares. Apesar disso, seu consumo está associado a restrições alimentares específicas. Estimativas indicam que distúrbios relacionados ao glúten, como a doença celíaca e a sensibilidade ao glúten não celíaca, afetam entre 1% e 7% da população mundial. Para atender esse público, práticas como a identificação clara de alimentos que contêm glúten e a oferta de alternativas seguras aos ingredientes tradicionais contribuem para uma experiência mais segura ao comer fora.
Viagens e destinos turísticos ampliam ainda mais esses desafios. Para Luara, conhecer a culinária local é uma das experiências mais esperadas das férias, mas nem sempre acessível para quem tem restrições alimentares. “Muitas vezes não existem opções seguras e interessantes. Não se trata de criar novos pratos típicos, mas de pensar em substituições e em menus mais diversos”, avalia. Segundo ela, pessoas com restrições alimentares costumam se tornar clientes extremamente fiéis quando encontram estabelecimentos preparados.
Em momentos de maior movimento, a atenção à segurança dos alimentos se torna ainda mais relevante.
A assessoria de imprensa do Restaurante Ocyá, que possui duas unidades no Rio de Janeiro, destaca que comunicação clara entre salão e cozinha, treinamento contínuo das equipes e transparência sobre os limites do que pode ser adaptado são fundamentais para lidar com alergias e intolerâncias de forma responsável.
“Não acreditamos que o tema das restrições alimentares seja uma moda passageira. Pelo contrário: é um tema estrutural, que faz parte da evolução do setor e da relação entre restaurante e cliente. O desafio está em equilibrar esse avanço com a coerência da proposta gastronômica, sem prometer aquilo que não conseguimos sustentar com segurança”, destaca a assessoria do restaurante.
“Segurança dos alimentos não é um estado fixo, é um exercício constante de atenção, responsabilidade e aprendizado”, completa.
A viajante Carmen Ruybal, que tem intolerância à lactose, uma das restrições alimentares mais comuns, reforça que comer fora é um dos principais fatores de estresse durante as viagens. Embora observe avanços em alguns países, ela relata frustrações frequentes. “Já precisei optar por uma salada simples em um restaurante renomado porque não conseguiram adaptar nenhum prato. Isso limita a liberdade de exploração que todo mundo espera ter nas férias”, conta.
Em períodos de alta demanda, como janeiro e feriados prolongados, a atenção às restrições alimentares se torna ainda mais crítica. A nutricionista Noadia Lobão, especialista em doença celíaca, aponta que falhas de comunicação e contaminação cruzada são problemas recorrentes. “Não adianta oferecer opção sem glúten se ela é preparada com os mesmos utensílios ou na mesma chapa. Para o celíaco, o risco está no detalhe”, alerta.
A presidente da ACELBRA-RJ, Suzane Boyadjian, destaca que a confiança é decisiva na escolha do restaurante. “Quem tem restrições alimentares escolhe o estabelecimento pelo quanto confia naquele lugar. Se o atendimento não é seguro e transparente, a pessoa entende que não dá para arriscar”, afirma.
Para o consumidor, escolher bares e restaurantes preparados para lidar com restrições alimentares faz diferença não apenas na segurança, mas também na qualidade da experiência.
Em um período marcado por lazer e altas expectativas, informação clara e comunicação responsável podem transformar uma refeição fora de casa em uma lembrança positiva.

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