Por Thainá Lima
Data: 9 de março de 2026
Busca por experiências, bebidas mais leves, opções sem álcool e influência das redes sociais mostram como o comportamento dos jovens está transformando o consumo no setor de alimentação fora do lar
O comportamento do consumidor nos bares e restaurantes passa por uma transformação silenciosa, mas profunda. A chamada Geração Z, formada por jovens nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010, chega aos estabelecimentos com outra lógica de consumo: menos apego ao hábito tradicional e mais atenção à experiência, à estética do ambiente e às escolhas de consumo.
Para empresários do setor, essas mudanças já são perceptíveis no dia a dia. O cliente continua frequentando bares, mas consome de forma diferente. Experimenta mais, busca variedade, alterna bebidas alcoólicas e não alcoólicas e valoriza ambientes que dialoguem com o universo digital.
Experiência pesa mais que o produto
No Boteco da Visconde, em Ponta Grossa (PR), o empresário Lucas Christiano Klas observa essa mudança de comportamento com clareza. Segundo ele, o público mais jovem não escolhe o bar apenas pelo que está no cardápio, mas pela experiência completa que o local oferece.
“A Geração Z consome muito mais pela experiência do que apenas pelo produto. No bar, isso fica evidente na busca por ambiente instagramável, promoções criativas e momentos que possam ser compartilhados nas redes”, afirma.
De acordo com ele, muitos clientes pesquisam o estabelecimento antes mesmo de sair de casa. Avaliam fotos, comentários e vídeos nas redes sociais e chegam já com expectativas sobre o ambiente e os drinks.
Esse comportamento também influencia diretamente o que é pedido no balcão. “Muitos chegam pedindo bebidas que viram em vídeos ou nos stories. Isso nos faz pensar mais em criações que dialoguem com esse universo digital”, explica.

Jovens bebem diferente
Outra mudança importante aparece no tipo de bebida escolhida. Segundo Klas, não houve queda significativa no consumo de álcool entre os jovens, mas ocorreu uma substituição das bebidas tradicionais por opções mais leves e criativas.
“Os clientes mais jovens tendem a trocar bebidas alcoólicas tradicionais por drinks autorais, gin, caipirinhas diferenciadas e até versões com menor teor alcoólico. Não é que bebem menos, eles bebem diferente”, diz.
Os drinks sem álcool também começaram a aparecer com mais frequência nos pedidos. Embora ainda representem uma parcela pequena das vendas, deixaram de ser algo pontual.
“A demanda por drinks sem álcool aumentou. Ainda é uma fatia pequena, mas já virou uma opção constante, principalmente em grupos em que nem todos querem consumir álcool”, afirma o empresário.
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Mudanças semelhantes aparecem em outras regiões do país. Em Ribeirão Preto (SP), o empresário Nicolas Horta, dono do bar O Português, observa uma transformação no comportamento dos clientes que envolve fatores econômicos, saúde e estilo de vida.
Segundo ele, o primeiro sinal aparece no volume de bebidas consumidas nas mesas.
“Mesas que antes pediam duas ou três rodadas de bebida hoje pedem uma, ou às vezes nenhuma. O cliente ainda vem, ainda consome, mas o ticket de bebida caiu de forma clara”, relata.
Outro fator que tem aparecido nas conversas com clientes é o uso de medicamentos voltados ao emagrecimento. “É cada vez mais comum o cliente avisar que está em tratamento e que vai comer pouco ou não vai beber”, diz.
Essa mudança também impactou o cardápio da casa. Conhecido pelas porções generosas, o bar precisou adaptar parte da oferta.
“Percebemos que muita gente estava deixando comida no prato ou dividindo uma porção entre várias pessoas. Começamos a oferecer versões menores e opções mais leves”, explica.
A procura por bebidas sem álcool também cresceu no estabelecimento, o que levou à inclusão de uma linha específica de drinks nesse formato.
Para Horta, essa mudança de comportamento não deve ser passageira. “As novas gerações já chegam com uma relação diferente com o álcool e com a comida, mais conscientes e mais seletivos. O bar e restaurante que não enxergar isso vai continuar tentando vender o que o cliente não quer mais comprar”, afirma.
Para o setor de alimentação fora do lar, o desafio passa a ser equilibrar tradição e adaptação. Manter a identidade dos estabelecimentos, mas compreender que o comportamento do consumidor está mudando e que acompanhar esse movimento pode ser decisivo para continuar relevante no mercado.

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