Por Guilherme Paixão
Data: 21 de janeiro de 2026
Formato amplia tempo de permanência do público, fortalece a identidade dos estabelecimentos e exige planejamento de longo prazo para gerar resultado
Com a aproximação do início oficial do Carnaval, a presença da roda de samba em bares de todo o país ganha ainda mais evidência. O formato, que dialoga diretamente com a cultura brasileira e com o desejo por experiências coletivas, deixou de ser apenas uma atração pontual para se firmar como estratégia de posicionamento, ocupação de horários e construção de relacionamento com o público.
Mais do que acompanhar o calendário da folia, bares que apostam na roda de samba ao longo do ano buscam ampliar o tempo de permanência dos clientes e criar uma identidade reconhecível. A experiência musical passa a funcionar como elemento central da proposta do negócio, influenciando desde o perfil do público até decisões operacionais e de consumo.
Para Pedro Costa, dono do Saruê, em Belo Horizonte, a força do formato está na capacidade de criar vínculo. “A roda de samba cria um vínculo diferente com o público e estimula a permanência. A ideia é trazer o cliente mais cedo, porque a roda começa depois do almoço, e fazer esse tempo render mais. Esse é o principal objetivo, e a roda de samba ajuda muito nisso”, afirma.
Ao mesmo tempo, o empresário alerta que a escolha não é neutra. “Existe uma parcela do público que não gosta de música ao vivo e que pode parar de frequentar ao entender que o bar virou apenas isso. Por outro lado, quem gosta passa a ser mais exigente. Quando não tem música, se frustra e procura outro lugar”, diz. Para ele, apostar no samba significa assumir um projeto de longo prazo. “Não adianta colocar um samba no domingo e achar que vai dar certo. Precisa de tempo para maturar. Depois que você firma, entende que casou com o samba. Cortar depois impacta muito o faturamento.”
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Embora a roda de samba aumente o tempo de permanência, isso não significa, necessariamente, aumento do ticket médio. Segundo Pedro Costa, trata-se de uma estratégia de volume. “As pessoas ficam mais tempo, mas o ticket médio não aumenta obrigatoriamente. É uma estratégia de massa, de colocar mais gente na casa, porque o interesse naquele momento não é só comida e bebida, mas o show”, explica.
Esse comportamento exige ajustes. “Às vezes o copo está vazio, mas a música começa e a pessoa demora a sair para comprar. Por isso, estratégias como balde de cerveja e combos ajudam, porque o cliente consome sem precisar sair do lugar”, afirma. Em casas onde o público fica em pé, o deslocamento até o balcão se torna ainda mais complexo.
O formato do espaço também influencia. “O samba é muito em pé. As pessoas querem sambar, ver o artista de perto, sentir a roda. Lugares onde todo mundo fica sentado não atraem tanto quem gosta de samba”, avalia. Ambientes híbridos, que permitem sentar e circular, tendem a funcionar melhor, além de possibilitar maior lotação. “Como banda é cara, interessa ao bar colocar o máximo de pessoas possível. Limitar muito os lugares sentados pode inviabilizar a conta.”
A relação do público com a roda de samba também passa pela fidelização ao artista. “O cliente volta, mas nem sempre é fiel à casa. Muitas vezes ele segue a atração. Isso precisa entrar na equação”, diz Pedro. Nesse cenário, o bar disputa atenção não só com outros estabelecimentos, mas com a agenda cultural da cidade.
Carnaval potencializa, mas não resolve
Com o Carnaval se aproximando, a roda de samba ganha ainda mais visibilidade. No entanto, Pedro Costa vê riscos em iniciar esse tipo de programação apenas para aproveitar o período. “O consumidor prefere lugares que já tocam samba, que têm experiência previsível, estrutura e artistas conhecidos. Começar no Carnaval exige muito investimento em comunicação e envolve risco alto”, avalia.
Segundo ele, os primeiros eventos costumam funcionar como investimento. “O primeiro dá prejuízo, o outro empata, depois começa a ajustar. Chegar no Carnaval sem esse aprendizado prévio é arriscado.” Para quem já atua com samba, o período pode abrir oportunidades pontuais. “Programar um samba perto da dispersão dos blocos faz sentido. Você não compete com o bloco, complementa.”
No Rio de Janeiro, o Baródromo, no entorno do Maracanã, mostra como a roda de samba pode se conectar à cultura carnavalesca de forma contínua. O bar passou a oferecer aulas gratuitas de samba no pé aos domingos, integradas à programação musical da casa, aproximando o público da dança, dos sambas de enredo e da memória do Carnaval carioca. Com acervo temático e programação regular, o espaço reforça a experiência cultural e amplia o engajamento dos frequentadores, sobretudo nos fins de semana.
Para Pedro Costa, o samba não depende do Carnaval. “O samba é perene. Pode ter casa cheia o ano inteiro. O Carnaval ajuda em alguns casos, mas não faz tanta diferença assim.” Ainda assim, ele pondera que existe um público que busca alternativas à rua. “Há quem queira um lugar mais estruturado, mas essa demanda não é tão grande. Muita gente viaja no Carnaval.”
Com planejamento, identidade clara e entendimento do público, a roda de samba se consolida como uma estratégia relevante para bares em todo o país. Mais do que uma atração sazonal, ela se afirma como ferramenta de posicionamento, convivência e construção de valor ao longo do ano.

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