
Por Guilherme Paixão
Data: 29 de agosto de 2025
Brasil é o segundo país que mais busca por remédios como Ozempic e Mounjaro, e tendência já influencia cardápios e operação do setor
O Brasil ocupa hoje o segundo lugar no ranking mundial de buscas pelos termos Ozempic e Mounjaro, dois dos remédios mais conhecidos da classe GLP-1, usados para controle de peso e emagrecimento. Além de transformar a vida de milhões de pessoas, esse tipo de medicamento começa a impactar bares e restaurantes. Isso porque os usuários tendem a ter menos apetite, pedem porções menores e, em alguns casos, até reduzem a frequência de idas a estabelecimentos fora do lar.
Nos Estados Unidos, o reflexo já é visível. Restaurantes criaram cardápios adaptados para esse público, com versões compactas de pratos tradicionais, mini coquetéis e menus degustação reduzidos. A ideia é atender quem passou a comer menos, mas não quer abrir mão da experiência gastronômica. Em Nova York, o Clinton Hall lançou a chamada “mini refeição pequenininha”, com hambúrguer menor, batata frita em porção reduzida e até uma mini cerveja. O sucesso foi imediato, principalmente entre clientes que usam remédios para emagrecer.
Esse movimento desperta a atenção de empresários brasileiros. Afinal, se a demanda por esses medicamentos cresce no país, o setor de alimentação fora do lar precisa entender como se adaptar para não perder clientes — e, mais que isso, como transformar a mudança em oportunidade.
O impacto dos remédios na rentabilidade e no desperdício
O grande ponto de interrogação para os empresários é: se as pessoas comem menos, o ticket médio vai cair? Para Adriana Lara, líder de Educação e Produtividade da Abrasel, essa é uma preocupação legítima, mas que pode ser encarada como uma chance de repensar modelos de cardápio e de operação.
“Porções menores podem reduzir o ticket médio, mas também permitem ajustar preços e margens, além de incentivar o consumo de acompanhamentos e bebidas. Na operação, simplificam a produção, reduzem desperdícios e exigem revisão das fichas técnicas e do planejamento de compras”, afirma.
Ou seja, em vez de encarar o uso de remédio como uma ameaça, bares e restaurantes podem se adaptar. Em alguns casos, a redução de tamanho abre espaço para maior diversificação. O cliente pode pedir duas pequenas entradas em vez de um prato principal, ou experimentar sobremesas que antes não caberiam após uma refeição maior. Isso amplia a experiência e pode equilibrar o faturamento.
Outro ponto positivo é o combate ao desperdício de alimentos, um dos grandes desafios do setor no Brasil. “Pratos mais ajustados à real necessidade do cliente reduzem sobras no prato e perdas na cozinha, ajudando a enfrentar um dos maiores problemas do setor”, reforça Adriana.
Cardápios menores e adaptação como diferencial competitivo
Oferecer cardápios adaptados a esse público não deve ser visto apenas como ajuste, mas como diferencial competitivo. Nos Estados Unidos, já existem redes que anunciam explicitamente menus pensados para usuários de remédios GLP-1. É o caso da Smoothie King, que criou um “cardápio de apoio ao GLP-1”, com smoothies ricos em proteínas, fibras e baixo teor de açúcar.
No Brasil, alguns estabelecimentos de alta gastronomia já oferecem meia porção, pratos individuais ou menus degustação mais curtos, ainda que não diretamente associados ao consumo de remédio. Esse tipo de flexibilidade pode se tornar cada vez mais relevante.
Para Adriana Lara, a tendência deve se consolidar também no mercado brasileiro. “O Brasil pode caminhar para formatos já comuns em outros países, como menus degustação, meia porção, pratos individuais e opções balanceadas”, avalia.
A mudança exige, no entanto, atenção redobrada em relação à segurança dos alimentos. “É preciso dar atenção na manipulação dos ingredientes fracionados, pois isso aumenta o risco de contaminação. O armazenamento adequado de porções menores é essencial, assim como refazer fichas técnicas para garantir padronização e custos corretos”, orienta Adriana.
Embora os remédios para emagrecer influenciem a forma como as pessoas consomem, a experiência continua sendo o que leva os clientes a bares e restaurantes. A ida a um estabelecimento envolve convivência, celebração, lazer e hospitalidade. Por isso, empreendimentos que adaptarem seus cardápios sem perder de vista a qualidade do serviço e o ambiente acolhedor terão vantagem competitiva.
Especialistas internacionais apontam que muitos clientes não saem para comer se não encontram opções adequadas ao seu apetite atual. Essa constatação reforça a importância de cardápios inclusivos, que contemplem desde grandes refeições até versões compactas. Isso evita que um público crescente — usuários de remédio para emagrecer — deixe de frequentar bares e restaurantes.
Além disso, o apelo visual também conta. Mini coquetéis, pratos em versões menores, menus degustação e sobremesas fracionadas geram desejo nas redes sociais, outro fator que atrai clientes e transforma a tendência em estratégia de marketing.
Com milhões de brasileiros interessados em usar ou já consumindo remédios como Ozempic e Mounjaro, bares e restaurantes precisam se adaptar. A mudança não deve ser vista como ameaça, mas como parte de um setor que historicamente sempre se ajustou às transformações sociais. O cliente que come menos pode gastar em experiências diferentes: uma bebida autoral, uma sobremesa criativa ou um prato compartilhado. Para os empresários, a chave está em testar novos formatos, ajustar fichas técnicas e encontrar equilíbrio entre rentabilidade e satisfação do cliente.
Restaurante a quilo: solução para novos hábitos de consumo

Para consumidores que usam remédios de emagrecimento ou simplesmente preferem comer menos, os restaurantes a quilo oferecem uma solução prática. O formato permite que cada cliente monte o prato de acordo com a fome do momento, evita desperdícios e garante flexibilidade para variar sabores e quantidades.
A Abrasel valoriza esse modelo por meio do concurso O Quilo é Nosso, que neste ano acontece entre os dias 16 e 26 de setembro e reúne estabelecimentos de todo o país em uma celebração anual. Clientes e jurados técnicos avaliam pratos criados especialmente para a competição, premiam os melhores em etapas estaduais e nacional. Mais do que uma disputa gastronômica, o concurso estimula qualidade, inovação e reforça a identidade cultural do restaurante a quilo como símbolo da alimentação fora do lar.
Rodrigo Zamperlini, dono do restaurante Mercato Brazil Manauara, em Manaus, campeão do concurso em 2017, confirma essa percepção. “Nós temos clientes recorrentes que estão fazendo tratamento para emagrecimento e que ressaltam a importância da variedade no cardápio, inclusive das saladas, para que possam seguir com a dieta balanceada e, ao mesmo tempo, variar o que escolhem para servir.”
Deixe seu comentário