Por Guilherme Paixão
Data: 27 de janeiro de 2026
Após as festas, pedidos ficam mais racionais, com foco em praticidade, custo-benefício e refeições completas que se encaixam na retomada da rotina
O início do ano costuma marcar uma virada importante no comportamento do consumidor de bares e restaurantes, especialmente no delivery. Depois de um período de excessos nas confraternizações de fim de ano, o cliente passa a fazer escolhas mais objetivas, com atenção maior ao bolso, à rotina e ao clima. Para os empreendedores, entender esse movimento é fundamental para ajustar cardápio, preços e estratégias de venda.
Dados recentes da Abrasel reforçam um cenário de confiança no setor. Um levantamento da entidade mostra que 69% dos estabelecimentos esperam faturar mais no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
Em relação ao último trimestre do ano passado, 56% também projetam crescimento. A avaliação positiva é sustentada pelo bom desempenho recente das empresas, impulsionado pelas confraternizações de fim de ano e pelo pagamento do 13º salário, em um contexto de menor taxa de desemprego no país.
No dia a dia das operações, no entanto, o delivery no começo do ano apresenta dinâmicas próprias. Em Curitiba, Hemerson Matos, dono do Sabor na Brasa, observa uma mudança clara no perfil dos pedidos logo após as festas.
“Temos uma queda no ticket médio nessa época. Acreditamos que, por estar de férias, o delivery vira uma opção quando parte da família está em viagem. Quem fica em casa se vira com um pedido menor, prático e rápido, com pratos mais individuais”, afirma.
Segundo ele, o comportamento reflete um consumidor mais cauteloso e menos disposto a gastar, mas ainda interessado em conveniência. “O delivery acaba sendo um ótimo custo-benefício, porque o custo está muito mais concentrado no produto do que na experiência como um todo”, explica.
Refeições completas seguem fortes no delivery
Em Araraquara, o Terraço Restaurante e Churrascaria, que atua há 47 anos no modelo de buffet por quilo e self service, percebe um movimento um pouco diferente, mas igualmente revelador. De acordo com Nathalia Catto, diretora administrativa da casa, os dados do iFood mostram que, no início do ano, os itens mais vendidos do delivery são refeições completas à base de churrasco.
“A Marmitex Média Churrasco lidera as vendas, seguida por combos e versões individuais. Isso revela um cliente que prioriza refeições bem servidas, com proteína em destaque. Mesmo no delivery, ele busca sustância e sensação de refeição principal, não apenas algo rápido”, explica.
Para Nathalia, esse comportamento indica retomada de rotina e busca por custo-benefício. “O cliente prefere resolver o almoço com uma única escolha, sem precisar montar pedidos ou adicionar itens extras. O delivery cumpre o papel de substituir a refeição feita em casa ou no trabalho”, afirma.
Hemerson também percebe essa lógica, mas com um viés mais leve no começo do ano. “Existe, sim, uma procura maior por pratos mais leves, com saladas. São opções mais baratas e mais saudáveis, mostrando um início de dieta depois das festas”, comenta.
Calor, rotina e horários influenciam os pedidos

O verão também pesa diretamente nas decisões do consumidor. No Sabor na Brasa, isso aparece de forma clara. “O calor influencia muito. Pratos de carne branca grelhados na brasa são os mais pedidos nessa época”, diz Hemerson.
No Terraço, a leitura é semelhante. Nathalia aponta que, mesmo com o destaque do churrasco, o cliente opta por porções equilibradas. “No verão, ganham espaço pratos completos, mas menos pesados. O cliente quer praticidade, sem excessos, adaptando o consumo ao clima”, explica.
Outro ponto importante para quem opera com delivery é a diferença entre dias e horários. Em Curitiba, Hemerson destaca que os pedidos se concentram mais durante a semana e no horário do almoço. “Os pedidos durante a semana são maiores. O delivery funciona bem para pequenas confraternizações em escritórios, quando o tempo e o trânsito atrapalham a rotina. No começo do ano, o almoço no delivery é bem mais forte”, afirma.
Para Nathalia, o comportamento também revela um consumidor que busca conforto sem esforço. “O cliente acessa o cardápio, identifica rapidamente os pratos principais e opta por escolhas seguras, bem avaliadas. A variedade existe, mas não é decisiva. O delivery entrega conforto alimentar e confiança”, resume.
Para bares e restaurantes, o recado é claro: no início do ano, o delivery segue relevante, mas exige leitura fina do comportamento do cliente. Ajustar porções, destacar refeições completas, oferecer opções leves e comunicar bem o custo-benefício pode ser decisivo para transformar um período tradicionalmente mais cauteloso em uma oportunidade de crescimento sustentável.

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