Por Thainá Lima
Data: 4 de março de 2026
Reciclagem impulsiona renda de catadores e leva Salvador ao Guinness com 46 toneladas de latinhas
O que acontece com a lata depois que o folião termina a bebida no meio do bloco? Em 2026, a resposta ganhou dimensão histórica graças à reciclagem. Em Salvador, 46 toneladas de latinhas de alumínio foram recolhidas em apenas quatro dias de festa, garantindo à cidade um lugar no Guinness World Records pela maior ação de reciclagem do mundo durante um Carnaval.
Ao todo, 131 toneladas de materiais recicláveis tiveram destinação correta na capital baiana. A operação de reciclagem mobilizou mais de 3 mil catadores autônomos e mais de dez cooperativas, com centros de coleta instalados nos principais circuitos da festa. O resultado foi além do recorde: cerca de R$ 1,4 milhão foram injetados diretamente na renda desses trabalhadores.
O impacto não ficou restrito à Bahia. Em Belo Horizonte, a coleta de recicláveis cresceu 15 toneladas em relação ao ano anterior. O aumento acompanha o crescimento do público nas ruas e do consumo de bebidas durante o Carnaval de rua, o que amplia o potencial econômico em grandes eventos populares.
Para Getúlio Andrade, catador há três décadas e diretor da ASMARE, a folia representa o momento mais importante do ano para quem vive da reciclagem. “O Carnaval envolve a cidade toda. Não vejo outro evento que se iguale, nem mesmo o réveillon. É um evento aberto”, afirma.
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Reciclagem e geração de renda
O alumínio é o material mais valorizado dentro da reciclagem. Quanto maior o consumo de bebidas em lata, maior a geração de renda. “É o material mais caro gerado e procurado. Essa variedade de bebidas gera valor”, explica Getúlio.
Na prática, o reaproveitamento transforma cada embalagem descartada nas ruas em pagamento imediato para quem vive da coleta. Em Salvador, os centros estruturados garantiram pesagem e remuneração no mesmo dia. Em Belo Horizonte, o projeto ReciclaBelô assegurou diária mínima de R$ 150 para catadores autônomos durante os quatro dias de festa, além do valor obtido com a venda dos materiais destinados à reciclagem.
O programa também disponibilizou equipamentos de proteção e estrutura adequada de triagem, fortalecendo a organização da reciclagem mesmo diante do grande fluxo de foliões.

Cidade mais limpa, ciclo mais sustentável
O avanço da reciclagem no Carnaval tem efeito direto na limpeza urbana e na segurança. A retirada rápida de latas, plásticos e vidro reduz riscos nas ruas e impede que toneladas de resíduos tenham como destino final os aterros sanitários. Nesse contexto, o alumínio ocupa posição estratégica: é o material com preço de compra mais valorizado dentro da reciclagem no Brasil, o que amplia o impacto econômico da coleta durante a festa.
Essa valorização explica por que a reciclagem de latinhas se tornou protagonista no Carnaval. Quanto maior o volume recolhido, maior a renda gerada para os catadores e maior o retorno ambiental para as cidades.
O modelo adotado nas capitais demonstra que a reciclagem pode operar dentro da lógica da economia circular mesmo em eventos de grande porte. O que seria descartado retorna ao ciclo produtivo, gera renda e reduz impacto ambiental.
Para Getúlio, a experiência confirma que a categoria está preparada para ampliar a escala da reciclagem em grandes eventos. “É um case de sucesso. Mostra que podemos atuar em grandes eventos com eficiência”, afirma.
A Líder de Sustentabilidade na Abrasel, Lílian Silva, reforça o papel estratégico da reciclagem dentro do setor de alimentação fora do lar. “Os catadores são fundamentais na cadeia produtiva do setor de alimentação fora do lar. Sem eles, a reciclagem não acontece, o que acelera o esgotamento dos recursos naturais do planeta. Os bares e restaurantes podem contribuir para a eficiência do trabalho desses profissionais, gerando mais renda, segurança e dignidade por meio da separação correta dos resíduos. Valorizar os catadores é um dos passos para construir um setor mais responsável e sustentável.”
Com milhões de pessoas nas ruas, a reciclagem deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar a dinâmica econômica do Carnaval. O consumo que movimenta bares, ambulantes e blocos também sustenta uma cadeia produtiva que começa na rua e termina na indústria recicladora.
O recorde de Salvador e o crescimento registrado em Belo Horizonte indicam que a reciclagem pode caminhar junto com a cultura popular. No ritmo do Carnaval, cada lata descartada carrega mais do que alumínio. Carrega renda, organização e um novo padrão de gestão sustentável para as grandes festas brasileiras.

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