Por Guilherme Paixão
Data: 13 de janeiro de 2026
Crescimento da imigração venezuelana impulsiona sabores, experiências culturais e novas opções gastronômicas para o público brasileiro
A presença da Venezuela no cotidiano brasileiro vai muito além dos dados migratórios e tem ganhado expressão também à mesa. Segundo informações do Censo Demográfico 2022, divulgadas em 2025, mais de 271 mil venezuelanos vivem atualmente no Brasil, tornando esse o maior grupo estrangeiro residente no país, à frente dos portugueses. Em pouco mais de uma década, o crescimento foi de quase 94 vezes, impulsionado principalmente pela crise humanitária enfrentada no país vizinho.
Esse movimento tem reflexos diretos no setor de alimentação fora do lar. Restaurantes venezuelanos e casas inspiradas na culinária da Venezuela começam a se espalhar por diferentes regiões do país, especialmente em estados como Roraima, principal porta de entrada da imigração, mas também em capitais e grandes centros urbanos, onde o público brasileiro demonstra curiosidade por novas experiências gastronômicas.
O cenário de expansão da gastronomia internacional ocorre em um momento de otimismo no setor. Levantamento realizado pela Abrasel mostra que os empresários encerraram 2025 com expectativas positivas para 2026. A pesquisa de conjuntura da entidade, divulgada em dezembro, aponta que 69% dos estabelecimentos esperam faturar mais no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025, impulsionados pela melhora do ambiente econômico e pelo desempenho dos negócios.
Dentro desse contexto, a culinária venezuelana surge como mais uma alternativa para quem frequenta bares e restaurantes em busca de novidades.
Para quem ainda não conhece, a experiência costuma surpreender logo na primeira visita. “Imagina uma comida com muito capricho e bem recheada, nossos sabores são marcantes, mas não é aquela comida que chega te queimando, porque não é apimentado por padrão. O tempero é bem trabalhado, as bases sempre são alho, cebola, ervas, e o sabor grelhado, carnes sempre bem temperadas, é um toque adocicado aqui e ali pra dar equilíbrio e deixar tudo mais interessante”, explica Genesis Arévalo, empreendedora venezuelana e proprietária do restaurante Mister Pepito, em Roraima.
Segundo ela, os molhos têm papel central na experiência. “Eles fazem parte da experiência de verdade. Você vai testando, misturando, escolhendo… e vai montando o teu sabor perfeito”, afirma. Para Genesis, a culinária da Venezuela não é algo distante do paladar brasileiro. “Não é uma comida exótica difícil. É diferente, sim, mas é familiar, gostosa e viciante. Aquele tipo de comida que você prova e pensa: ‘tá… por que eu não comia isso antes?’”.
Pratos que conquistam logo na primeira visita
Entre os pratos mais procurados por quem visita um restaurante venezuelano pela primeira vez estão os tequeños, petiscos tradicionais feitos com massa artesanal levemente amanteigada e recheio de queijo, fritos até atingir crocância por fora e textura cremosa por dentro. A combinação costuma agradar rapidamente o público brasileiro.
Outro destaque é o pepito, considerado um clássico da gastronomia da Venezuela. Servido em pão estilo baguete com gergelim, o sanduíche reúne proteína bem temperada, legumes frescos e molhos marcantes. “A versão Tradicional é a escolha típica de quem vem pela primeira vez, com tomate e alface frescos, queijo mussarela, presunto e um detalhe que não é detalhe: os molhos entram como parte central do sabor”, conta Genesis.
Para quem vai em grupo, versões maiores do prato, pensadas para compartilhar, reforçam a ideia de refeição coletiva, algo bastante valorizado por quem frequenta bares e restaurantes no Brasil.
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Gastronomia venezuelana como ponte cultural

Mais do que alimentar, a culinária venezuelana tem funcionado como uma ponte cultural entre brasileiros e imigrantes. “Muita gente chega primeiro pela fome, mas logo vira conversa pela curiosidade”, relata Genesis. Perguntas sobre a origem dos pratos, os costumes e os ingredientes abrem espaço para trocas culturais que vão além da refeição.
“A gente não está só vendendo um lanche: está entregando um pedacinho da Venezuela na mordida”, afirma. No restaurante, música em espanhol, atendimento marcado pela hospitalidade venezuelana e o uso do idioma criam um ambiente que desperta interesse e aproxima culturas.
Segundo a empreendedora, o espaço também funciona como ponto de acolhimento para a comunidade venezuelana. “Aqui não é só um lugar pra comer: é um ambiente onde você escuta música em espanhol, reconhece o sotaque dos atendentes e sente pertencimento”.
Embora muitas receitas sigam fiéis à tradição, adaptações ao paladar brasileiro também fazem parte do processo. “Temos pratos que mantemos fiéis à nossa tradição e também receitas adaptadas às preferências do nosso público, mas sempre mantendo o nosso sabor base”, explica Genesis. A proposta é unir a identidade da Venezuela com elementos da cultura local, criando experiências acessíveis e autênticas.
Com a ampliação da presença venezuelana no Brasil e o crescimento do interesse por novas gastronomias, a culinária da Venezuela passa a ocupar um espaço cada vez mais relevante nos bares e restaurantes do país, oferecendo aos clientes a chance de descobrir sabores, histórias e culturas sem sair da mesa.

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